O álbum “Breu”, do músico Reiner, ganhou destaque e está disponível nas plataformas Rolling Stone e No/ze, dois sites de musica de reconhecimento nacional. O álbum, que foi contemplado no edital de Música da Lei Aldir Blanc Pará, chegou nas plataformas digitais nos dia 30 de março.

Em uma publicação das redes sociais nesta quarta-feira (7), o artista falou sobre o destaque e contou sobre como foi fazer a música. “Quando fiz essas músicas, não me preocupei em agradar as pessoas ou ter algum tipo de reconhecimento, eu só queria desabafar sobre tudo que tenho passado no decorrer desses anos vivendo sob a tutela desse desgoverno brasileiro, que sabemos hoje o seu potencial de matar o povo brasileiro”, escreveu Reiner.

Que completou dizendo: “Viver no Brazil não tem sido fácil e essas canções surgiram pra tirar um pouco esse peso das minhas costas pra tentar aliviar a inércia de não saber o que fazer pra combater esse neofascismo e a ignorância das pessoas que ainda defendem o presidente e o descaso de toda a sua equipe. Ver esse trabalho reverberando só me faz acreditar que temos muita força pra conseguir sair do fundo desse poço, precisamos nos mobilizar pra tirar esse governo do poder. Muito obrigado @sigaoritual @aguiarogus por fazerem esse trabalho chegar nos lugares certos!⁣”.

Ver essa foto no Instagram

Uma publicação compartilhada por reiner (@tocareiner)

Com cinco faixas mesclando trip hop a sonoridades brasileiras, “Breu” é um trabalho político, de protesto. Faz alusão à escravidão da população negra africana e o genocídio da população afrobrasileira, e põe foco na situação alarmante que se encontra o país com um governo autoritário de princípios fascistas, fazendo uma reflexão e um grito de desespero, angústia e ódio.

Apesar de “Breu” ter relação direta à atual crise política, econômica e sanitária que o Brasil está imerso, o álbum é resultado de anos de estudo e processo criativo. Tem uma forte pesquisa estética de “trip hop”, gênero que nasce de colagens de outros ritmos lá na década de 80, mas ficou conhecido mundialmente pela sonoridade dos grupos ingleses “Portishead” e “Massive Attack” nos anos 90. Mas tem uma explicação pra essa escolha: todo o trabalho de Reiner foi construído em cima de batidas desaceleradas de rap, uma das marcas do gênero britânico. De outro lado, “Breu” drenou todos os sentimentos mais pesados de revolta da população afrobrasileira, resultado de centenas de anos de violência.

“Muitas coisas vêm me atravessando nos últimos anos e, principalmente, a situação política e social que o nosso país vem sofrendo. Não consigo ver o caminho que estamos trilhando de forma otimista e viver no Brasil tem sido uma provação todos os dias. Com tudo isso rolando, vejo que não falar sobre todas essas coisas me joga pra longe da sinceridade que sempre quis imprimir no meu trabalho. Basicamente, é uma coleção de ira, desespero e ódio... tudo isso que me atravessa de uma forma colossal e que não tinha mais como reprimir, falando sobre amor e fingindo que nada tem acontecido no país”, confessa o artista.

 

“Breu” foi um álbum que fez Reiner sair do quarto, do home studio onde sempre produziu e até finalizou suas músicas. Gravado no Floresta Sonora e produzido por Léo Chermont (STROBO), o trabalho ainda traz participações de Junhão Feitosa na bateria, Márcio Jardim (Trio Manari) na percussão, Inesita no piano e Rafael Guerreiro no violão, musicistas experientes e ídolos de Reiner, assim como o produtor do álbum, um dos guitarristas que ele tem como inspiração. “A grande mudança nesse processo foi poder discutir ideias com outra pessoa muito mais experiente que eu. E o melhor, uma pessoa que eu admiro e respeito como profissional, o que me deu muito mais confiança pra cair de cabeça no trabalho”, conta, animado. A finalização ficou nas mãos de Diego Fadul, do Fadul Audio Lab, um parceiro de trabalho constante na carreira do músico que fez mix e master de “Breu”.

Outro nome importante para a construção da obra foi o poeta paraense Bruno de Menezes, que representa um herói negro para Reiner. Seu quarto livro, “Batuque”, mais especificamente o poema “Mãe Preta”, permeia o lirismo abolicionista presente em “Breu”, na identidade visual do projeto e na foto de capa, que tem assinatura de Duda Santana e traz um busto do poeta em cera que, coincidentemente, foi produzido pelo pai da fotógrafa anos atrás. É esse jogo de conceitos, experimentações sonoras e escolhas estéticas que faz do álbum um trabalho que inicia um novo passo na carreira do músico.

“Foi um dos artistas que nesse momento do Brasil conseguiu retratar o país de uma forma verdadeira. A gente tá vivendo toda essa loucura e realmente eu acho que ele tá retratando isso de uma forma digna, amadurecida, consciente, se entendendo como ser humano, sabendo onde ele quer estar, se arriscando sonoramente, musicalmente que é uma função artística nossa, pra desbravar novos caminhos. É o tipo de artista que eu admiro por isso, por sair de um lugar óbvio de música paraense e brasileira e ir por outro caminho. As músicas são muito atuais. Adorei produzir ele”, conta Leo Chermont, que assina a produção do trabalho.

Com “Batuque”, “Sanha”, seguidos por “Breu”, “Arregalo” e “Navio”,  Reiner apresenta um material que o coloca em outro patamar no cenário musical do estado, experimentando música ao lado de grandes nomes e fazendo o som que acredita, esquivando-se de tendências e guias mercadológicas, com a premissa de que “arte é tudo que provoca”, defende. “Poder despertar algo com os acordes, palavras, imagens em quem te assiste, mas ao mesmo tempo conseguir levar uma visão só tua pra algo mais universal que faça a sociedade se identificar com o que queres dizer, arte pra mim é isso. A minha missão com a música é simplesmente conseguir tocar alguém, provocar... se eu tiver feito isso com uma pessoa, minha missão foi cumprida”.

CONFIRA:

Conteúdo Patrocinado

MAIS ACESSADAS